Educar é crescer
O
economista brasileiro mais conhecido no
exterior diz que nosso problema é cultural
e que a saída para o país virá das escolas
Franco
Iacomini
O economista
carioca José Alexandre Scheinkman passou fora do Brasil
quase a metade de seus 50 anos de idade. Mesmo assim,
nunca perdeu o contato com a realidade nacional. Nos
últimos meses, seus colegas da Universidade de Chicago e
professores de outras instituições o têm procurado com
freqüência para entender o que está acontecendo com o
Brasil. Encontram sempre um interlocutor bem informado e
realista. "Há um certo espanto, um estranhamento
com a falta de capacidade do Brasil para resolver seus
problemas", diz. Scheinkman deixou em setembro
passado o cargo de diretor do Departamento de Economia da
Universidade de Chicago cadeira que já pertenceu
ao Nobel Milton Friedman e estuda proposta de
transferência para a Universidade Princeton, outra
instituição americana de enorme prestígio. Nesta
entrevista a VEJA, Scheinkman fala do Plano Real, das
conseqüências da desvalorização da moeda brasileira e
da necessidade de ampliar os investimentos em educação
no Brasil.
Veja
Com a desvalorização do real é inevitável a volta da
inflação?
Scheinkman
Acho que as pessoas estão prestando muita atenção
nessa idéia de que a desvalorização do real vai trazer
necessariamente uma inflação da mesma magnitude. Não
é bem assim. A inflação dependerá principalmente da
política monetária e fiscal que o Brasil vai seguir de
agora em diante. Um bom exemplo é o que se passou no
Canadá. De 1991 até o final de 1998, o dólar canadense
desvalorizou-se 40% em relação ao americano. Apesar
disso, o Canadá teve ano a ano uma taxa de inflação
sempre mais baixa do que a taxa americana. Outro caso é
o da Tailândia, que desvalorizou sua moeda em 1997. A
taxa de inflação anual da Tailândia ficou abaixo de
12% ao ano. Este é um nível que seria viável para o
Brasil, desde que a política fiscal e monetária sejam
adequadas.
Veja
Se tudo der errado e a inflação voltar, restará algum
legado dos felizes anos de estabilidade?
Scheinkman
Um dos motivos da popularidade do Plano Real é o fato de
ele ter sido uma grande fonte de bem-estar para a
população. Se a inflação voltar à magnitude de
antigamente, o bem-estar vai embora, a nossa
distribuição de renda, que ja é ruim, vai se
deteriorar de novo. As melhorias de renda e de
alimentação que as classes mais pobres tiveram nos
últimos anos vão desaparecer. Vamos ver o mesmo filme,
só que de trás para a frente. Vai ser traumático,
porque as experiências anteriores foram ruins. Nós
fomos campeões mundiais em inflação média. Em uma
lista de 62 países montada pelo Banco Mundial com dados
entre 1973 e 1994, o Brasil tinha taxa média de 127% ao
ano nesse período. Em seguida vinham Nicarágua,
Argentina, Zaire e Peru. Por outro lado, a estabilidade
trouxe algumas conquistas permanentes. A diminuição da
regulamentação e a privatização são algumas delas.
Ninguém duvida que teremos no futuro, com inflação ou
sem ela, um serviço telefônico muito mais eficiente e
mais barato do que temos hoje. Começa-se a discutir com
muito mais seriedade a questão da educação do que se
fazia no início da década. Tudo isso é progresso.
Alguns desses avanços são permanentes. Se você pensar
mesmo no lado da política fiscal, há melhoras
sensíveis. No início da década o Brasil tinha bancos
estaduais que se comportavam como pequenos bancos
centrais, sem controle nenhum. Hoje, os que ainda existem
estão em processo de privatização. É outro avanço
permanente.
Veja
O senhor é uma fonte de referência sobre o Brasil nos
Estados Unidos. Qual é a tônica das reações agora?
Scheinkman
Há um certo espanto, um estranhamento com a falta de
capacidade do Brasil para resolver seus problemas.
Pessoalmente sinto que, no fundo, a falta de crescimento
econômico desses últimos vinte anos é um fracasso da
minha geração. Estou com 50 anos e passei boa parte da
minha vida e quase toda minha atividade profissional
imerso nesse período de paradeira. Essa incapacidade de
resolver os problemas nacionais é algo que tem de ser
debitada na nossa conta, a da elite intelectual,
política e econômica do país. Olhando os números da
economia, parece evidente que houve grandes falhas por
toda a nossa História. É difícil apontar uma única
falha primordial, mas um exemplo óbvio é a maneira como
ignoramos a questão da educação. O Brasil é um país
onde o povo é muito pouco educado, mesmo comparado com
outras nações do mesmo nível de renda. Em todos eles,
o Estado teve um papel primordial em dar às pessoas
oportunidade de educação, principalmente em nível
primário e secundário. Uma melhoria da situação de
educação dos brasileiros é fundamental não apenas do
ponto de vista do crescimento como é também a maneira
mais eficaz de aperfeiçoar a distribuição de renda no
Brasil.
Veja
De que maneira a educação se transforma em um mecanismo
de distribuição de renda?
Scheinkman
De duas maneiras. Em primeiro lugar, é claro que um
trabalhador mais educado ganha mais, porque produz mais.
Se educássemos a parcela da população que hoje não
tem acesso à educação, ela necessariamente passaria a
ganhar mais. Segundo, porque baixaria as diferenças de
salário ditadas pela educação. Um dos grandes
produtores de desigualdade no Brasil é o fato de que
existem grandes diferenças educacionais que se
transformam em grandes abismos de salário. No Brasil
essas diferenças são elevadas porque há escassez de
gente educada, o que torna essa mão-de-obra mais cara. A
falta de investimento em educação foi uma das razões
pelas quais o Brasil foi perdendo o ritmo de crescimento
nas últimas décadas. Não é demais acreditar que um
país como o Brasil possa crescer a uma taxa de 6% ou 7%
ao ano.
Veja
O que é preciso para crescer nesse ritmo?
Scheinkman
Primeiro, será necessário assegurar uma situação
fiscal adequada e investimentos em educação e outros
setores-chave. É preciso dar condições para que a
nossa taxa de investimentos aumente dos atuais 19% para
pelo menos 25% do PIB. Seria o necessário para absorver
a demanda por emprego e dar condições adequadas de vida
à população no futuro. O Brasil precisa trabalhar
tanto para melhorar o nível de vida quanto para reduzir
a desigualdade. Tudo isso passa pela geração de
empregos. Essas seriam as chaves para se chegar a um novo
ciclo de desenvolvimento. Está claro agora que as fontes
externas de recursos minguaram, que não se chega a uma
situação dessas sem investimento local e que só
se liberam recursos da sociedade para esse objetivo se o
governo parar de devorar a poupança interna com o saco
sem fundo de suas dívidas.
Veja
O Brasil deslanchou o ajuste fiscal, conseguiu auxílio
internacional e finalmente liberou as taxas de câmbio.
Por que nada disso funcionou?
Scheinkman
O governo teria de complementar várias das medidas que
foram tomadas. Uma delas: depois de liberar o câmbio, é
fundamental que o governo anuncie metas inflacionárias
claras e os mecanismos que vai usar para atingir tais
metas. O governo precisa abandonar o uso da taxa de juros
para ajudar no controle do câmbio, como vem fazendo
hoje, e começar a usá-la como um dos instrumentos para
controlar a inflação. É o que a maioria dos países
faz. Eles olham muito pouco para a taxa de câmbio e
utilizam os juros para conter a demanda e cumprir suas
metas de inflação. Seria bom também se o governo
pudesse esclarecer as regras para intervenção no
câmbio. Mais eficiente seria um funcionário graduado
dizer ao mercado "olha, nós vamos vender tantas
centenas de milhões de dólares de reservas nesta
semana". É muito melhor do que ficar tentando
disfarçar as suas intervenções, como tem sido feito.
Veja
A idéia de vender as estatais que restam ainda neste ano
para reduzir o déficit de uma tacada só e assim baixar
as taxas de juros é uma boa idéia?
Scheinkman
Sempre que vejo a lista dos grandes devedores do Banco do
Brasil eu passo a acreditar cada vez menos que essa
instituição traga algum benefício para o país. Tenho
muitas dúvidas de que as estatais sejam de algum
proveito para a maioria da população. É óbvio, no
entanto, que não vale a pena vender o patrimônio
público atabalhoadamente. O processo de privatização
de companhias desse porte não pode ser feito a toque de
caixa. Mas bastaria o governo se comprometer com esse
processo para que houvesse um certo alívio. O anúncio
convincente da decisão inarredável de privatizar essas
companhias o mais rápido possível ajudaria muito a
mudar a opinião que as pessoas têm sobre a situação
fiscal brasileira.
Veja
A centralização cambial não é uma tentação
perigosa?
Scheinkman
É um sistema muito sujeito a pressões e à corrupção,
porque o governo passa a ter o poder de decidir quem é
que pode ter dólares. O governo tende a introduzir
muitas distorções na economia quando pode tomar
decisões como essa, portanto não é uma
responsabilidade que possa ser concedida a ele. Desde que
a Malásia introduziu esse sistema, o nível de atividade
econômica por lá não parou de cair. Ou seja, não se
trata de um mecanismo que seja capaz de trazer
crescimento, que é a necessidade maior do país.
Veja
As expectativas são tão importantes assim no jogo
econômico atual?
Scheinkman
Há sempre as duas coisas em jogo, a realidade e a idéia
que se faz dela. Hoje em dia vive-se muito na
dependência da expectativa dos outros. Quando você
anuncia que vai gastar menos com alguma coisa, nada
impede que você mude de opinião especialmente no
caso do Brasil, porque isso sempre aconteceu antes. Vou
dar um exemplo: quando em 1997 o governo anunciou aquele
plano de 51 medidas, o efeito nas expectativas foi muito
positivo. A quantidade de crédito à disposição para o
Brasil aumentou rapidamente. O preço do crédito também
caiu. Depois, o que se viu foi que as promessas de corte
permaneceram no campo das intenções. O governo não
cortou nada. Quando voltou a anunciar medidas
estabilizadoras, um ano depois, o Brasil obteve reações
apenas mornas. É muito mais fácil perder confiança do
que ganhá-la. Acho, porém, que o mais importante ainda
é fazer coisas. À medida que as ações e não as
palavras do governo mostrem claramente que o país está
em um bom caminho, a confiança pode ser restabelecida.
Está claro, porém, que a essa altura só promessas não
vão adiantar nada.
Veja
A tal crise de confiabilidade de que tanto se fala então
é, no fundo, uma crise de falta de ação?
Scheinkman
Certamente. Quando se fala em confiabilidade, pensa-se no
investidor estrangeiro. Mas não há diferença entre a
confiança do investidor brasileiro e a do estrangeiro.
Houve um movimento paralelo de quebra de confiança no
Brasil e fora dele. Sabe-se que tanto os investidores
brasileiros quanto os estrangeiros estavam demandando
taxas de juros altas para manter seus empréstimos ao
governo. As empresas brasileiras tiraram dinheiro do
país e adiantaram pagamentos para escapar de uma
desvalorização que elas acreditavam ser inevitável. É
um erro pensar que há uma divergência de opiniões
entre os agentes econômicos no Brasil e fora dele.
Quando o sinal da confiança aponta para baixo fora do
Brasil é um indicador de que internamente o sentimento
de insegurança já se difundiu há muito tempo.
Veja
O Plano Real como o conhecíamos acabou?
Scheinkman
Como qualquer plano de estabilização, o Real só
poderia dar certo com o acerto fiscal. A única maneira
de chegar a uma estabilidade monetária duradoura é
obter o equilíbrio entre despesas e receita do governo.
Infelizmente, essas reformas não chegaram a tempo de
manter a estabilidade do câmbio. Mas não é o caso
agora discutir se o plano acabou ou não. O fundamental
é refletir sobre o que fazer para retomar a estabilidade
e permitir ao país crescer novamente. Afinal, essa era a
finalidade do Plano Real.
Veja
Então, nem tudo está perdido?
Scheinkman
O grande problema do Brasil é a baixa taxa de
crescimento. A falta de um ajuste fiscal prejudicou o
crescimento na medida em que o dinheiro que poderia estar
sendo investido em novas fábricas e novas máquinas foi
usado para financiar a dívida do governo. Entre 1960 e
1980, a renda per capita do Brasil crescia em média 4,5%
por ano. De 1980 a 1997, o crescimento foi praticamente
zero. Se o país continuasse a crescer com a mesma taxa
de 1960 a 1980, a renda per capita hoje seria equivalente
ao dobro da atual. Estaríamos com uma renda de cerca de
10.000 dólares por habitante, igual à da Coréia do
Sul. Não se pode falar mais nem em década perdida. Já
são duas décadas perdidas.
Veja
Que cenários poderíamos ter tido se o ajuste tivesse
sido feito no tempo certo?
Scheinkman
Em primeiro lugar, nós estaríamos convivendo com uma
dívida interna menor e taxas de juros bem mais baixas. A
conseqüência imediata seria de que a iniciativa privada
nacional passaria a investir mais. Em 1997, investiu-se
pouco no Brasil. Mas ainda assim um quinto de todo o
investimento feito no país era alimentado por recursos
estrangeiros porque a poupança nacional estava muito
comprometida com a rolagem da dívida interna do governo.
Se o ajuste tivesse sido feito na hora certa, o Brasil
estaria muito menos dependente do investimento externo.
Caso nossa poupança tivesse sido dirigida para o
crescimento e não para a dívida interna, seríamos uma
nação muito mais saudável. A crise asiática de 1997
teria tido sobre nós um efeito bem menos perverso. Bem,
o ajuste foi postergado e o resultado é o que
conhecemos, a extrema vulnerabilidade pela dependência
do capital externo. Estaríamos certamente em um
mundo muito melhor se tivéssemos feito o ajuste naquele
período de relativa tranqüilidade entre 1995 e meados
de 1997. A conjuntura internacional era favorável. Mas
ninguém quis consertar o telhado enquanto havia sol.
Quando veio a tempestade das crises já era tarde.

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