Os Memorandos
Tania Rojas Esponda
Princeton University.
2003.
"Em que linguagem pensa você?" Com esta pergunta me vi confrontada já muitas
vezes. Quando, na conversação, vem à tona a minha origem, a saber o fato de que
nasci no México, cresci na Alemanha e agora vivo nos Estados Unidos,
inevitavelmente alguém me põe a famosa pergunta.
Inicialmente, eu não tinha resposta nenhuma ou pelo menos não era uma resposta
bem-sucedida . " Não sei. Na minha opinião não penso em nenhuma língua".
Naturalmente ninguém gostava da minha resposta. " Mas deve pensar em alguma
língua. Qualquer pessoa precisa de uma língua para pensar", protestavam,
insatisfeitos.
Aconteceu então que troquei as respostas. Poderia-se dizer também que troquei as
perguntas. Decidida que eu não podia responder à aquilo que me perguntavam,
alterei a minha estratégia: " Não posso dizer em que linguagem penso. Mas posso
te dizer outra coisa. Posso contar-te que línguas uso para escrever memorandos,
os apontamentos rápidos que faço para lembrar-me das coisas que preciso fazer".
Geralmente, as pessoas aceitavam esta pergunta modificada, permanecendo
interessados na minha resposta. "Acho", lhes dizia eu, "que a linguagem em que
escrevo os meus memorandos dependa do lugar onde esteja, a saber da linguagem
das pessoas que moram naquele lugar. Isso quer dizer que escrevo sobretudo em
alemão quando estou na Alemanha, em inglês durante o semestre aqui em Princeton
e em espanhol quando vou visitar minha avó no México".
Com esta resposta todos estavam contentes, eu e também os interrogadores. Ficou
então minha resposta por muito tempo...até o dia em que me dei conta que eu
havia estado enganando a todos.
A verdade se revelou num dia de muita decisão, quando, depois de haver terminado
meu trabalho, decidi pôr em ordem meus metros quadrados aqui em Princeton (oficialmente
são "pés quadrados", mas eu ainda não gosto dos pés). Meu quarto estava num
estado típico, isto é, estava um pouco desordenado, com papeís espalhados pela
mesa de trabalho e pelo piso, e com muitos livros de matemática colocados junta
à cômoda, os quais em conjunto com os patins de gelo produziam uma imagem
engraçada.
Enquanto eu olhava esta papelada me chamaram atenção também as dúzias de
memorandos, de todas as cores e todos os tamanhos, que cobriam a minha
escrivaninha com uma camada colorida. Vendo isto resolvi que se não organizava
todas estas tiras de papel, ia esquecer alguma coisa importante em breve, embora
-- como por milagre-isso não tivesse ainda acontecido.
Em resumo, pus-me a transferir todos estes deveres, distribuídos em muitas
folhas, no calendário do meu computador.
Não notei nada estranho enquanto que estava escrevendo e organizando; foi depois,
quando recostei-me na cadeira, que tomei consciência daquilo que escrevera.
Era uma lista longa, escrita em três línguas, não somente em inglês, como
deveria ser segundo minha resposta. Mas o mais intrigante foi o critério
conforme o qual estavam escolhidas as línguas para cada palavra: a seleção
aparentemente dependia do contexto da palavra, não do contexto em que me
encontrava . Assim, havia palavras como "pagarle a Princeton" , "escribirle a la
Bita", a primeira frase escrita em espanhol porque minha mãe me recorda às vezes
de pagar as contas, a segunda escrita em espanhol porque quando penso em minha
avô ("Bita" é um tratamento carinhoso para "Abuelita", inventado por minha prima
quando era um bebê), o faço em espanhol (sim, decidi que em alguns casos sei bem
em que linguagem penso. Acho agora que eu não posso pensar em minha avô numa
língua que não seja o espanhol.) A maioria das palavras estavam escritas em
inglês, o que parecia natural, considerando que eram quase todos trabalhos de
casa e coisas que eu tinha que estudar. Mas descobri também um pouco de alemão
na lista, a saber a frase "Schlittschuhe schleifen", o que significa "afiar os
patins de gelo". A razão porque não havia escolhido outra língua para anotar
isto é que afio meus patins exclusivamente quando vou a Berlim. Continuei lendo,
fascinada pela minha descoberta lingüística, até que encontrei um problema, uma
aparente exceção à minha regra recém-desvendada. O problema era que existiam
duas frases lembrando-me de lavar roupa, uma que dizia "lavar ropa" e a outra
que dizia "do your laundry" (Não, não é a verdade inteira. Em verdade havia pelo
menos catorze papeizinhos lembrando-me de lavar roupa, todos com muitos pontos
de exclamação, mas somente existiam duas espécias de papeizinhos, aqueles em
espanhol e aqueles em inglês, de modo que todos os eram equivalentes àqueles
dois papeizinhos mencionados ). Depois de um pouco de reflexão, porém,
compreendi que "lavar roupa" era a unica expressão na lista que pertencia a
ambos os contextos, ao contexto espanhol da minha casa na Alemanha e também ao
contexto inglês de Princeton, onde os estudantes gostam muito de mencionar que
ainda não lavaram a sua roupa.
Este é o final da minha historinha, a qual me surpreendeu e me fez muito pensar
sobre como o cérebro organiza informações e que me motivou, de forma muito
diferente das outras vezes, a estudar as línguas, de forma cultural bem como
científica.