O quadro do qual vou falar é azul. Mas ontem parecia cinzento. Não, não falo de uma cor comum .
Se eu digo que o quadro era cinzento é porque essa cor é a melhor aproximação. Em realidade a pintura é muito misteriosa. A maior parte dela é ocupada por mar é céu. Entretanto não é possível reconhecer onde o mar termina e o céu começa. Vemos unicamente uma área grande,
plena de cursos verdes e rosa, um pouco de marrom , muito azul escuro e claro.
No centro há um barco pequeno que transporta duas pessoas. Talvez retornam de uma viagem,
de uma visita a um encontro distante. Talvez, durante aquela estada, um deles, aquele
que está sentado, tenha se enamorado . Talvez essa é a razão da sua seriedade, uma
preocupação que não permite a ele ajudar a manejar o barco.
Nesta melancolia entra um outra preocupação. O sol, uma bola compacta de cor de açaí ,
está desaparecendo. Ao menos esta é a impressão que criam as massas de cor azul escuro,
massas cujo objetivo parece ser conquistar todo o quadro, vencendo todas as outras cores,
a cor verde, a cor marrom , os tons laranja, todos, com exceção do cinzento, a cor que
sobrevive a tudo.
Mas hoje, uma noite depois da minha prima encontrada com o quadro,
vi a cena descrita outra vez. “Que poder imenso tem o sol “, foi mi pensamento imediato.
A luz do sol transformava todas as cores. O cinzento era quase um azul claro, a cor de açaí
era agora um tom vermelho morno e suave; todo o perigo estava esquecido. Talvez até o viajante
triste não estivesse mais doente de amor.